quinta-feira, 26 de abril de 2012

BRASÍLIA 52 ANOS


A capital do Brasil chega aos 52 anos e os desafios que enfrenta são similares aos de grandes metrópoles. O crescimento desordenado, apesar de ter sido uma cidade planejada em sua origem, caracteriza uma série de desencontros entre seus vários governos e desacertos políticos entre as forças que compuseram e compõem seu parlamento, cuja visão permanece estreita e paroquial.
 
Um paradoxo marca a realidade institucional da capital: não obstante ser governada como uma paróquia do interior é uma importante metrópole do prisma geoeconômico e geopolítico. Na prática, é a capital logística e o cérebro administrativo do país.

Brasília tem uma população produtiva e dedicada, mas que apresenta contradições estruturais em suas expectativas de vida. Isso mantém vivos conflitos latentes; mesmo havendo convergência em suas demandas por serviços públicos de qualidade e participação efetiva na economia, que ainda se alicerça no mercado público.
 
Condição que marca o intenso movimento humano para o centro da cidade no início dos dias e no sentido contrário ao fim do expediente. Esse ritmo configura um grande problema gerencial e cobra muita paciência dos cidadãos, para entender e aceitar um desenho urbano concebido numa época em que a utopia era libertária e comunista.
 
E se esperava o surgimento de uma sociedade fraterna e solidária, governada por homens bons e incorruptíveis, vindos de partidos políticos e movimentos sociais comprometidos com o bem comum. Mas isso, como toda utopia, não se realizou.

O sonho de uma cidade fraterna se transformou num pesadelo diário, marcado por desmandos, corrupções, violências várias e uma economia informal expansiva, abrangendo vários segmentos sociais e viabilizando o surgimento de uma sociedade marcada pela desigualdade, pela violência passional, pelo tráfico e excessivo consumo de drogas, pela indústria do desmonte e da receptação, pela exponencial criminalidade juvenil e por inúmeros problemas ambientais.
 
Várias Regiões Administrativas – cidades satélites - funcionavam como “cidades-dormitório” para milhares de trabalhadores obrigados a morar distante, devido sobretudo à desigualdade socioeconômica e à especulação imobiliária, não tinham vida própria. E algumas ainda não têm. Seus problemas se mantêm, cronicamente.

Convém lembrar que a própria formação histórica da capital trouxe, ao longo de cinco décadas, inúmeros conflitos políticos, embates históricos entre oligarquias goianas do Entorno e forças empreendedoras locais. Muitas, dessas, arrivistas e que inclusive se aliaram a organizações sindicais, religiosas e policiais, para construir e implantar um modelo político clientelista, corporativo e descomprometido estruturalmente com o bem comum.

A utopia comunista de fraternidade e participação popular simplesmente se transformou em trágica realidade: um embate político entre corporações gerenciadas por pelegos concentrados apenas em seus projetos pessoais. A política local virou palco privilegiado para disputa entre corporações e seus interesses.
 
Em lugar do sonho, ficou a assustadora pressão do Entorno, demandando serviços públicos oferecidos em Brasília na área da saúde, da educação, da segurança, do lazer, do entretenimento e do transporte – hoje praticamente inexistente. E parte de sua juventude, sem formação familiar, educacional e perspectivas de futuro, vislumbra na sociedade brasiliense um mercado de vítimas potenciais para práticas criminosas, como bem registram os boletins de ocorrências policiais. O Entorno e sua gente continuam abandonados pelos governantes. E Brasília permanece vítima desse processo de desgoverno generalizado.

Um desafio estratégico importante que o governo de DF enfrenta é promover o desenvolvimento econômico do Entorno, como se fosse polo catalisador, pois concentra a atenção e as expectativas de milhares de pessoas que não têm, nos seus municípios, condições dignas de sobrevivência.
 
Mas os problemas internos do próprio GDF não têm permitido serem implementadas ações minimamente capazes de irradiar influência empreendedora naquelas localidades. A gravidade dos problemas do DF e do Entorno aumenta, porque o nível de tensão é expansivo e a incapacidade de atender a demanda cresce. Ocorre uma transferência de responsabilidade do governo local para o de Goiás, e vice versa. O resultado é o abandono do Entorno. E, é claro, o aumento exponencial dos problemas da capital e da infelicidade de muita gente.

Brasília completa 52 anos de vida e os brasilienses têm muitos problemas para resolver. Mas é preciso celebrar também, pois em cinco décadas contribuiu decisivamente para mudar o cenário geoeconômico e geopolítico do Brasil para melhor. Teve decisiva participação na transformação desse país. E, seguramente, se o cidadão brasiliense despertar do sonho para a realidade e depurar suas escolhas de líderes e se comprometer com um projeto de futuro para sua família, a partir da valorização da vida do outro, para garantir a de seus filhos, teremos uma sociedade mais fraterna e solidária. A utopia pode ressurgir. Ainda há esperança!
Parabéns, Brasília, a capital de todos os brasileiros.

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