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segunda-feira, 23 de março de 2009

A VIOLÊNCIA SOCIAL NO BRASIL

11/03/2009 - JORNAL DE BRASILIA - DF
A violência social no Brasil

A violência social no Brasil é um problema de ordem ética e política, e somente um novo pacto institucional e pessoal poderá mudar, no longo prazo, essa realidade.



A crescente violência social no Brasil pode ser vista sob vários ângulos. Mesmo com a sociedade investindo recursos próprios - adquirindo equipamentos, sistemas, alarmes, fazendo treinamento preventivo para criar mecanismos que tornem sua vida mais segura - e procurando auxiliar o Estado na prevenção e combate à criminalidade, ainda assim a criminalidade cresce. E isso ocorre em todos os setores sociais e se reproduz em quase todos os ambientes e segmentos. Vivemos em uma sociedade que aceita, paradoxalmente, a violência, não obstante todo o investimento feito para diminuir a criminalidade.




O que está por trás dessa realidade? Por que não diminui estruturalmente a violência cometida por pessoas e instituições contra pessoas? As contradições sistêmicas aparecem quando são desmascaradas, por exemplo, quadrilhas e grupos de extermínio e, neles, participam policiais. Institucionalmente, representantes do Estado estão presentes cometendo violência, seja agindo como criminosos, seja combatendo o crime.
Os limites entre a ação legal e a ilegal são tênues e exigem, para a preservação da legalidade, uma consciência cívica e um nível de treinamento técnico e profissionalização que o Estado não consegue prover. Tampouco a articulação gerencial entre as diversas instituições públicas, sobretudo a Justiça e o arcabouço jurídico institucional, não garantem a punição exemplar para os membros do Estado que viram criminosos. No âmbito da sociedade, a realidade não é muito diferente. O desrespeito à vida humana é crescente e se alastra por quase todos os setores sociais. Vemos, até com frequência, pais e filhos cometendo atos violentos mutuamente. A desagregação da família é marcante, sobretudo quando se verifica sua incapacidade de estabelecer limites comportamentais que promovam a pacífica convivência social.


A consequência mais visível dessa situação é o aumento exponencial da delinquência juvenil, que tem apresentado níveis sem precedentes porque se manifesta com agressividade e, geralmente, consumo de drogas. A crise ética é grave. A carência de princípios humanitários e solidários é marcante. Categorias sociais mais desprotegidas institucionalmente, como pobres, idosos, crianças e mulheres, tornam-se muito vulneráveis em ambientes que se caracterizam pela violência social gratuita. Crimes banais, passionais e ações criminosas organizadas de forma "empresarial" se alastram por toda a sociedade brasileira. O Estado não consegue agir de forma a gerar, pelo menos, uma sensação de segurança pública, quer seja pelo policiamento ostensivo quer seja pela punição aos "ilustres" criminosos de colarinho branco, que agem respaldados pela impunidade institucionalizada, alicerçada em legislações que foram elaboradas para manter privilégios para as elites. A sensação de insegurança pública é crescente. E a população é obrigada, com seus impostos, a custear sistemas carcerários que não recuperam criminosos (se é que criminosos são recuperáveis) e nem fazem a segurança pública funcionar efetivamente, produzindo a paz social. O mais impressionante é o fato de que a própria sociedade está cada vez mais consumindo drogas e aceitando, passivamente, a corrupção policial - que "alimenta" o narcotráfico com armas contrabandeadas e expropriadas do próprio Estado, isto é, adquiridas com dinheiro público.



Atualmente, algumas instituições públicas são "capturadas" pelo crime, e criminosos são legitimados por sufrágio popular, tornando-se líderes de executivos e legislativos. A população torna-se refém da ação desses criminosos e, por medo e cooptação, dão a eles seu voto e o direito de decidirem sobre seu destino. Como pensar em mudanças em ambientes tão adoecidos moralmente? Como diminuir a violência se ela é apenas uma reificação de acordos tácitos entre grupos sociais, pessoas e instituições?


O que se vislumbra para o futuro próximo é o recrudescimento da ação violenta do Estado contra as categorias sociais mais desprotegidas, o crescimento da impunidade para os criminosos de colarinho branco, o aumento da delinquência juvenil, sobretudo pela inexistência de um projeto de futuro capaz de mobilizar a juventude e afastá-la da dependência das drogas. A violência familiar também deve crescer, por diversos fatores, mas, entre eles, a desagregação das famílias. A violência social no Brasil é um problema de ordem ética e política, e somente um novo pacto institucional e pessoal poderá mudar, no longo prazo, essa realidade.



Antonio Flávio Testa é pesquisador de inclusão digital e cidadania no Departamento de Educação da Universidade de Brasília (UnB).
http://www.linearclipping.com.br/PDFs/20093118727.

6 comentários:

Luana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luana disse...

óla professor, fui sua em belém do pará pela FGV, não sei se recorda sou a Luana? Lembra?talvez não afinal tem inúmeros alunos.
adorei a matéria e realmente apenas um novo pacto institucional a longo prazo é necessario gostei também do seu site, todos os dias baixo um livro e leio pelo menos um artigo, Gostaria de parabenizá-lo pelos artigos, pelos livros e pelo site em si é muito produtivo.
Pra qual e-mail fica melhor de se comunicar com o senhor?
Se quizer mandar e-mail meu e-mail é: admluanasantos@hotmail.com, aguardarei retorno.
Abraços e saudades.

Fernando Abranches disse...

Legal este seu blog, pena que não está atualizado. Perdemos o contato e não nos encontramos mais, precisamos encontrar e conversar.
Abs,
Do seu amigo e admirador
Fernando Abranches
fernando.abranches@gmail.com

Carla Palavra disse...

Olá professor! Sou aluna de psicologia, termino a faculdade este ano e atraves de uma das minhas pesquisas sobre violência social cheguei ao seu blog. Gostaria muito de lhe pedir algumas indicaçoes de leitura sobre o tema pois o que encontrei até o momento ainda é insuficiente para poder abordar isso como tema de monografia. Caso puder me ajudar eu agradeço imenso. Parabens pelo blog, muito educativo.

O meu email é: caalpana@hotmail.com

Abço
Carla Palavra

Nivisxavier disse...

A sociedade humana parece estar voltando cada vez mais no tempo, é como se estivessemos revivendo a pré-história onde tinhamos homens das cavernas que não sabia dialogar uns com os outros. Vemos hoje que até mesmo os hominídeos, propriamente ditos os primeiros primatas a habitar o planeta eram mais educados de que nós os Homens modernados.

Monica disse...

Queria primeiramente parabenizar pelo blog.
Está crescendo em Fortaleza/ce uma campanha contra a violência social e urbana. No qual já foi divulgado além das mídias sociais, em rádio, tv e saiu em um jornal aqui da capital. É de grande importância nós jovens lutar em prol desta causa, pois a tendencia é que a violência só aumente.
O vídeo da nossa campanha pode ser encontrado neste url: http://www.youtube.com/watch?v=NYZrIG-AcWI&feature=related

Tema: Violência Social e Urbana
Lema: "Quando calar não é o melhor remédio."

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