segunda-feira, 18 de junho de 2018

DROGAS E HIPOCRISIA




O crescente número de prisões e de apreensões de drogas realizado pela polícia do Distrito Federal merece uma reflexão mais apurada.

Brasília, desde os anos 70, do século passado, sobretudo o Plano Piloto, sempre foi referência no consumo de drogas. À época de sua fundação, os filhos das elites política, administrativa e militar e seus agregados oriundos de vários segmentos de classe média, em toda sua estratificação social e econômica, sempre consumiram, com gosto e exagero, as drogas de sua época: maconha, LSD, anfetaminas e derivados, além do álcool, é claro .

 Brasília, que tem em seu DNA a característica de metrópole experimentou, com alegria e êxtase, o “desbunde” dos anos 70. Anos maravilhosos... 
Vivíamos sob regime autoritário, com censura e repressão política. Mas não houve a mesma ênfase na repressão ao “desbunde” e à drogadição. Ainda bem, para muitos! Isso envolve uma geração, que optou por outra via, que não a investida frustrada, na utopia desvairada da luta armada contra o regime. Preferiram o esoterismo e as drogas. E, assim, caminhou nossa sociedade brasiliense, em trilhas consideradas alternativas entre “quebradas, festas e outras celebrações”.

Mas vieram outros tempos e o Brasil cresceu. Houve investimentos na infraestrutura, bem ou mal, o Brasil se interligou, as distâncias diminuíram, por conta sobretudo da indústria rodoviária e das telecomunicações.

O consumo de drogas aumentou. Sobretudo a maconha e a cocaína. O mercado local passou a ser promissor para os produtores, sobretudo para o mercado internacional. As drogas passaram a ser problema geoeconômico e a interessar muitas organizações criminosas, os cartéis e mesmo Estados.   A alocação de expressivos recursos orçamentários no combate ao narcotráfico não tem apresentado resultados significativos. Nessa guerra ao narcotráfico o Estado perde de “goleada”, pois utiliza estratégia e táticas equivocadas e ineficazes.

Existem muitos aliados, no plano nacional e internacional, interessados na rentabilidade inerente ao narcotráfico. Para esses interessados, não há portanto a necessidade de combatê-lo com eficácia. Ademais, os consumidores são muitos e, do ponto de vista comercial, quase imbatíveis.

Prevalece o consumo e o direito informal, embora não legitimados pelos Estados. Mas essa é outra conversa. O imenso mercado de consumo das drogas ainda não entrou de fato na agenda política governamental. Daí a infiltração do narcotráfico em vários segmentos dos Estados.

 Essa é uma questão que, certamente, vai adentrar a discussão internacional, sobretudo agora que o Canadá tende a mudar sua posição em relação à maconha recreativa. Existe?!!.  De qualquer forma, essa estratégia vai estimular o turismo para o Canadá.
Ah, a Copa do mundo de futebol na América do Norte, certamente vai influenciar bastante essa discussão. O Canadá produz, legaliza, consome e exporta maconha para o maior mercado consumidor, os EUA, que, por sua vez, não tende a legalizá-la naquele imenso ambiente de consumo.
No México, país vizinho, submetido à pressão de grandes cartéis criminosos, a força de demanda para atender ao consumo pode estimular a concorrência entre produtores e distribuidores. Vamos ver como reagirá o Tio Sam, que tanto aprecia o THC de laboratório.

Uma questão que não quer calar vem à tona: como reagirão os grandes e poderosos laboratórios de produtos farmacêuticos e empresas de alimentos e bebidas, ante esse imenso mercado consumidor?
Será que vão abandonar essa oportunidade? Ou teremos maconha e seus derivados, desde medicamentos, biscoitos, farinhas, cigarros, bebidas, água, refrigerantes, energéticos, - de grandes marcas -, oferecidos pelos concorrentes e legitimados pela regulamentação governamental?

Tenho a impressão de que a segunda metade desse século diante de tantas mudanças, inovações, novos direitos e poderosos interesses econômicos globalizados, trará novas questões ao debate político e ensejará a regulamentação de novos mercados.
Mas, voltemos à nossa realidade tupiniquim, mais especificamente ao centro-oeste brasileiro, o coração logístico do país.

Por que crescem o mercado e o consumo de drogas no centro-oeste, pergunta-me um dedicado repórter de um expressivo jornal local? Cresce, basicamente, porque, além do encantamento provocado, faz parte da cultura brasiliense, é um “estilo de vida”!!?.
Mas cresce também porque, em várias regiões do entorno, o tráfico, mais do que o consumo, é relativamente, uma estratégia de sobrevivência econômica. O Estado é fraco, corrupto, o crime é organizado e a economia informal é forte.

A organização social desse ambiente marginal tem suas variantes culturais entre os grupos que atuam nesse mercado informal; há disputas pelo domínio de território, por acesso às armas, carros e mulheres, além do prestígio de pertencerem a quadrilhas organizadas e poderem ascender no mundo do crime e  tornarem-se líderes. Essas características incorporam um projeto de vida.

O que é, habitualmente, oferecido aos jovens nessas regiões não lhes interessa, pois escolas com currículos defasados, inexistência de empregos promissores, famílias desagregadas e muitos outros problemas têm intensidade e impacto variados nas decisões individuais.

Houve nos últimos trinta anos significativo abandono dos poderes públicos nacional, estaduais e municipais em torno de um projeto de nação voltado para a cidadania que contemplasse políticas familiares, educacionais, empreendedoras e de segurança pública eficazes e transformadoras.
Isso se misturou à lógica coronelista e com ranços inapagáveis de uma visão escravocrata e reprodutora de uma desigualdade social estrutural.

 Para muitos, a saída para o futuro é o momento presente. Não deixa de ser sintomático que a expressão mais utilizada pelos jovens seja “véio” (velho), ou seja, tudo que o cerca é desdenhado, é velho. Ultrapassado. Obsoleto.
Não usam a expressão de um ídolo contemporâneo, um ancião de 76 anos “rei da jovem guarda”: “ é isso aí, bicho”. Expressão que marcou a época do “desbunde” e do início do consumo de drogas na capital.

O Brasil mudou - para continuar o mesmo?!. Não existe projeto de futuro. A mentira dos anos 2003 de que a esperança venceria o medo, deu lugar à sensação de insegurança e de medo de tudo.

O imaginário social hoje é preenchido por um vazio existencial assustador. Não existem bandeiras políticas. Não existem sonhos de futuro. Só pesadelos. O medo é real. Mesmo não sabendo de quê...

E ainda há quem ache que o jovem não consuma drogas, vivemos a geração do “conhaque com energético”. Tem até que  misture Old Parr com Red Bull!

Muito bem, dito isso, a justiça brasileira é de uma lucidez social de dar inveja a Gengis Kan, isentíssima, inventou a famigerada audiência de custódia.
Não tenho certeza, mas acho que saiu da cabeça de um ex-ministro da justiça, que satanás o tenha, porque no céu dos cristãos, não consegue entrada.
Argumentava que era preciso descongestionar os presídios, superlotados à sua época;  hoje, mais ainda. Inventou os mutirões e fez uma péssima gestão na Justiça. Sua missão era outra.... Bem outra.

Sua obrigação seria proteger o “inocente” que, por nada saber, - nunca soube de nada- foi condenado, sem provas, a doze anos e alguns momentos de prisão e deverá ser premiado com mais algumas dezenas de anos de condenação injusta.

O "chefe", dotado de uma imensa irresponsabilidade patológica, é apenas um coitado que comandou a ruína de nossa economia e criou um estilo ético próprio: “ a lei só existe para os outros, pra mim, não. Sou inocente, sou o único inocente nesse país”.

 No Brasil tudo é injusto. Mas liberar traficantes com centenas  de quilos de drogas, fuzis e munição, não.  Mamãe desembargadora liberta filhinho querido. E outros grandes bandidos estão soltos, vivendo em balneários de luxo. Enquanto, uma pobre mulher que se apropriou de comida para os filhos é, exemplarmente, presa. Um usuário de maconha preso com uma “bagana” fica em cana. Juiz concede liberdade a assassino que anunciava o crime. O liberta para matar a mulher. Alegou que não tinha bola de cristal. E ficou tudo por isso mesmo. Esse é o Brasil!

As elites judiciárias com sua exegese burocrática e tendenciosa decidem a favor dos criminosos. Esse é o Brasil de 2018. Injusto e justo, de acordo com a hermenêutica burocrática dos “supremos”.

Finalizando, o Distrito Federal tem uma polícia civil muito competente. Seu desempenho profissional é exemplar no combate ao narcotráfico. Basta analisarmos as estatísticas de apreensão de drogas nos últimos anos.  Muito bem.  Vai continuar sendo exemplar e competente, mas e daí?

A questão é: dará conta de apreender toda droga que passa pela sua jurisdição, de prender usuários, porque esses vão aumentar?  A justiça vai continuar a aplicar uma das mais iníquas leis que esse país usa contra a cidadania - lei das Drogas, de 2006, cuja aplicação prende o pequeno usuário e liberta os grandes traficantes. Estes, mesmo quando presos, têm vida boa, porque têm dinheiro e bons advogados. 

A insensatez e a iniquidade dominam o cotidiano desse país.

Ao respeitável repórter em cumprimento de sua missão profissional digo, sinteticamente: o consumo de drogas e prisão de usuários cresce no DF e em todo país em virtude de uma estratégia equivocada e ineficaz de combate ao narcotráfico. Há muita hipocrisia e insensatez no ar.




segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

SEGURANÇA PÚBLICA E PAZ SOCIAL NA AMÉRICA LATINA


A situação da segurança pública na América Latina, passa pela prevenção e controle de ações de delinquência e educação de qualidade, além da necessidade de se implementar políticas de infância e juventude consistentes e com foco em um projeto futuro de convivencialidade pacífica e democrática, entre pessoas.

Segundo estudos internacionais, a sensação de insegurança é um problema não só psicológico, ou emocional, mas sim um problema político, que se espraia por praticamente toda a América Latina, em dimensões diferenciadas, mas crescentes em intensidade. Isto causa um mal-estar coletivo, cujas consequências mais visíveis estão no descrédito do poder público, com suas instituições e na desconfiança sobre a competência dos líderes nacionais para resolver questões atinentes à violência social e à segurança pública.

Em setembro de 2016, o renomado jornal El País, publicou uma importante reportagem na qual demonstra que

“A insegurança é o grande tema político em quase toda a América Latina. Tornou-se um dos principais assuntos em praticamente todos os países. Durante as últimas eleições no Peru, foi a principal questão abordada no debate que quase levou à vitória de Keiko Fujimori. Na Venezuela, México, Brasil e até em países mais tranquilos, como a Argentina, a violência já é a principal preocupação. Os dados explicam por quê. 

Quase 135.000 pessoas foram assassinadas no ano passado na América Latina e no Caribe, segundo cifras do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que organizou uma reunião de especialistas durante uma semana em Buenos Aires.

Essa violência e seu combate têm um custo de cerca de 120 bilhões de dólares (384 bilhões de reais) por ano, o que equivale a 200 dólares (640 reais) por habitante. Tanto que a América Latina poderia ter um PIB per capita 25% maior se alcançasse cifras de insegurança semelhantes às do resto do mundo.

Os países da América Latina têm muitas diferenças entre si, mas há duas coisas que claramente os une: a insegurança cidadã e a desigualdade. Nos últimos anos, com o enorme crescimento econômico em função do maior preço das matérias-primas, e com as políticas redistributivas de governos de esquerda, a pobreza diminuiu em quase todos os países. A cobertura de saúde e educação também foi ampliada, mas quase nenhuma nação conseguiu melhorar os índices de segurança. Ao contrário: a situação piorou até mesmo nas que estavam melhor, como a Argentina. ”

Sabemos que as políticas vigentes de combate a criminalidade, ao narcotráfico e os sistemas penitenciários não têm funcionado como deveriam, pois, ao invés de constatarmos a diminuição da violência e a ressocialização de egressos das prisões, o que verificamos é o aumento - em escala exponencial -  de crimes contra a vida, contra o patrimônio e  do nível de competência das organizações criminosas.  
Estas desenvolvem alianças formais e informais com vários sistemas da economia e da política, sobretudo buscando tornar legítimo o dinheiro obtido pelas suas ações criminosas.

Em 2006, Moisés Naim, renomado editor da revista Foreign Policy, publicou uma obra chamada Ilícito,esse estudo detalha um lado pouco conhecido da globalização. Depois de uma década de pesquisa, informa que 10% do PIB mundial é produzido por atividades ilícitas:
"As redes mundiais de comércio ilegal de armas, drogas, órgãos humanos, imigrantes, bens falsificados, prostitutas, arte roubada, além do terrorismo e da lavagem de dinheiro são hoje uma parte consolidada da economia internacional e movimentam centenas de bilhões de dólares ao ano. 
 Contrabandistas, traficantes e piratas sempre existiram, mas nunca com um poder econômico que gira em torno de 10% de todo o comércio mundial, muito menos com um poder político capaz de controlar nações inteiras."

 Com dados surpreendentes e exemplos atuais, faz de Ilícito uma contribuição indispensável a todos que desejam conhecer um pouco mais sobre essa nova economia global, mais interligada, mais rápida e menos sujeita ao controle dos Estados.

A globalização trouxe inúmeros benefícios para a economia formal, mas também favorece muito as atividades ilícitas, porque, sobretudo não existem mecanismos eficazes de fiscalização e controle democráticos e cooperativos que produzam soluções para o crescimento econômico e o desenvolvimento social com justiça e equanimidade.

Os desafios estão postos, cabe aos governos e aos gestores dos poderes instituídos debaterem soluções e elaborarem políticas públicas capazes de, implementadas, produzirem bons resultados.
É necessário formar gestores de políticas de segurança com competência para enfrentar os desafios do mundo contemporâneo, que exige além de capacidade técnica, sensibilidade cívica.
É preciso desenvolver mecanismos de gestão capazes de avaliar a eficácia das ações públicas e inverter as prioridades dos gastos com o combate ineficaz ao crime e investir mais recursos em políticas sociais capazes de produzir cidadania e paz na América Latina.



domingo, 18 de fevereiro de 2018

REDES SOCIAIS E OPINIÃO PÚBLICA


 I
Atualmente, é possível observar dois processos sociais que se chocam e tendem a promover uma transição cultural interessante, sobretudo no que se refere à cultura política dominante.
Por um lado, há o comportamento do cidadão que é midiatizado de forma intensiva e volátil, superficial mesmo, principalmente pelo uso intenso das redes sociais, com destaque para a internet e seus diversos aplicativos, sobressaindo-se o facebook   e o whats app. Neles são colocadas opiniões de forma quase instantânea, ação movida por impulsos digitais, telemáticos, pode-se dizer. 
A verdade é que a formação de opinião nas redes sociais decorre da capacidade que o indivíduo tem de registrar, principalmente, imagens, slogans, frases de efeito, registrá-las mentalmente e fazer a devida reflexão intelectual.
 As mudanças que ocorrem no universo cognitivo humano, no ambiente digital são - tudo indica - profundas, mas ainda não totalmente decodificadas pelos estudiosos desse novo fenômeno social, que é a formação de opinião a partir do acesso a esse ambiente.
Sabe-se que a atenção do indivíduo tem um valor inestimável no universo digital. O cérebro humano  é capaz de registrar incontáveis informações, de todo tipo; mas não há, ainda, um sistema de medição que permita aferir qual o impacto real desses estímulos informacionais no processo de decodificação das mensagens registradas. Os estudos de neuromarketing e de outras áreas da neurociência desenvolvem estudos nessa área do conhecimento.
O processo intelectual tradicional aplicado à narrativa das redes sociais exige atenção na leitura, para decodificar melhor as mensagens - e requer pesquisa e análise para entender o processo e o sentido das mensagens veiculadas na velocidade e ubiquidade das redes sociais. Além de capacidade para entender  a percepção simbólica e a linguagem interpretativa e narrativa dos inúmeros  grupos específicos, com os mais variados matizes ideológicos e interesses, que navegam nos oceanos digitais.
Esse fenômeno torna-se muito evidenciado em momentos de discussão sobre temas relevantes para a sociedade e para a política, sobretudo.  E esse traço cultural de usar as redes sociais e seus aplicativos revelam um tipo de comportamento social e político diferenciado, mas que não necessariamente leva à formação de uma opinião consistente, mas permite, no entanto, pela quantidade de replicações,  caráter viral, amplificar a ressonância das mensagens e a captura instantânea da atenção de incontáveis pessoas, que acessam a esses mecanismos midiáticos e assimilam subconscientemente muitas dessas mensagens.
Esse processo induz a um tipo de comportamento político que é facilmente manipulável, porque tem a capacidade de massificar mensagens de forma individualizada. Ou seja, o indivíduo recebe de forma bem particular a pressão das mensagens, geralmente na forma de imagens, micro vídeos, frases de efeito e slogans, que se prestam mais a induzir o indivíduo a tomar uma posição, a favor ou contra, mas nem sempre com base em argumentos consistentes.
Essa narrativa é muito visível nas tentativas de construir ou desconstruir imagens de personalidades públicas. Esse tipo de comportamento, no entanto tem suas vantagens, pois as mensagens veiculam numa velocidade incontrolável, pela “viralização” e pela massificação customizada, para utilizar uma expressão do marketing digital.
A imagem pública, a reputação, as práticas e exemplos, positivos e negativos, tornaram-se importantes elementos nessa narrativa. O impacto negativo sobre as personalidades pode ser altamente prejudicial, porque desconstrói imagens públicas construídas durante longo período, com outras ferramentas comunicativas e processos gerenciais.
A reconstrução de uma imagem no mundo digital, sobretudo de personalidades e marcas de empresas e de produtos, tornou- se um desafio difícil para os novos gestores desses processos, por conta sobretudo da “viralização” e do caráter ubíquo. E isso no jogo político é nefasto, pois atinge a opinião pública com a força incontrolável da mídia digital e sua capacidade de irradiar influência instantânea.
A vantagem desse processo é que se fatos positivos, ações corretas e imagens públicas decentes se mantiverem na mídia digital, levam uma vantagem profunda na construção de um processo relacional de aceitação social e pública.
Portanto, as mídias digitais tem grande valor para a construção de uma cidadania digital, mas como instrumento, ou conjunto de ferramentas tecnológicas, que requerem bons conteúdos para produzirem os efeitos transformadores que a tecnologia, por si só, não proporciona.



REDES SOCIAIS E OPINIÃO PÚBLICA II

A segunda estrutura social desse embate conceitual e até histórico é a cultura política tradicional e ainda dominante.
Ela tem mantém seus traços oligárquicos, clientelísticos, fisiológicos, corporativos, corruptos e seus representantes, historicamente, não se preocuparam com os interesses sociais, na prática; não obstante o discurso populista ter predominado, ao longo de nossa história.
Os processos de manipulação das massas sempre se pautaram pelo controle do acesso à boa informação. , Considera-se boa informação aquela que auxilia o indivíduo a decidir a partir da análise crítica, que começa por entender o que está em jogo nas disputas políticas; quem ganha e quem perde, o que? Como funciona a estrutura de poder? Qual o meu papel, minha função nesse processo? 
Por isso, o processo de manipulação política e social começa pelo controle dos sistemas educacionais, passa pelos sistemas de comunicação, pelo controle do acesso aos recursos públicos gerados pela poupança da sociedade, mediante impostos, taxas, multas  e confiscos variados.
E hoje vivemos um embate estrutural. A internet ainda é um universo livre e incontrolável no que tange ao acesso a informação, apesar de termos, no Brasil,  uma internet de péssima qualidade, muito cara  e de difícil acesso para a maioria da população.
Mas os movimentos sociais que antecederam a Copa das Confederações, em 2014, mostraram que a sociedade, que maioria - entre os mais jovens - eram midiatizados, mas não necessariamente politizados; apesar de muitas reivindicações serem justas e necessárias para a construção de uma nação mais solidária e equânime.
Alguns estudos de ilustres sociólogos, como o  professor Pedro Demo, revelam, no entanto, que o brasileiro ainda padece de um déficit de cidadania. Suas obras Cidadania Pequena e Cidadania Menor, ambas dos anos 2000, constatam um traço característico de nossa sociedade: somos mobilizáveis facilmente e também facilmente desmobilizáveis.
  Basta lembrarmos-nos de alguns exemplos: 1. A crise do apagão, no governo FHC ainda. O governo conclamou a população a mudar seu comportamento e poupar, a população atendeu a solicitação e poupou. Pagou caro por isso, pois o governo aumentou impostos para manter o lucro das distribuidoras, em detrimento do interesse popular.
2. Crise de 2013/14, milhões de brasileiros foram às ruas reivindicando melhoria dos serviços públicos, o governo respondeu alegando que era preciso uma reforma política e o que aconteceu foi a piora dos serviços públicos e o aumento de tarifas e a imensa insatisfação social.
3. O favorecimento dos cartórios, serviços essenciais para a população, que é submetida ao jugo cartorial para realizar quase todo tipo de transações e a Câmara aprova aumentos estratosféricos para os cartórios, em detrimento das necessidades e condições da população.
E aqui está a essência desse embate estrutural: a população acessa as redes sociais, aos aplicativos e protesta, dissemina viralmente seu descontentamento, mas não se mantém mobilizada para acompanhar o processo decisório, que quase sempre favorece ao poder econômico.
As oligarquias de direita e de esquerda se tornam aliadas nesses momentos e se submetem ao poder do sistema financeiro; e quem recebe todo o impacto negativo é o cidadão, na forma de aumento de impostos contribuições compulsórias  e precarização dos serviços públicos.
 Basta olharmos a qualidade da saúde, da educação, dos transportes e da segurança pública, que em 2013 foram alvo de grandes reivindicações e em 2017 só pioraram em qualidade e aumentaram em custos sociais e financeiros, gerando enorme insatisfação social.
A discussão em torno da representatividade política -  nesse contexto de crise e transformação social no Brasil e no mundo, merece uma atenção especial: por um lado temos: inovações  tecnológicas fantásticas. São soluções que a tecnologia oferece, mas somente num determinado nível, porque do ponto de vista educacional e político não há esforços institucionais significativos, tampouco partidário, nem social, para mudar a lógica da manipulação popular, tanto pela direita como pelas esquerdas, que convergem em submissão ao sistema financeiro e à lógica clientelista e fisiológica de sempre.
Basta olharmos as operações policiais em curso, o jogo do judiciário atual, a ação dos partidos, dos escritórios de advocacia,  para entendermos bem esse processo de manipulação e de maquiagem da realidade.
 A carência maior é de mobilização permanente da sociedade para pressionar o Estado a promover uma discussão profunda, via Congresso Nacional, com toda sua estrutura partidária, que não consegue inovar e nem incorporar novas práticas, novas bandeiras sociais e políticas, na prática; embora no discurso apareçam novos sofismas.
E necessário acontecer uma discussão profícua sobre o futuro Brasil. Seremos uma nação verdadeira, ou permaneceremos esse amontoado de gente indignada e perplexa frente às transformações que a tecnologia oferece e as demandas sociais, econômicas e políticas que se apresentam a todos nós?
Essa é a essência, a meu ver, de uma representatividade política real, efetiva e eficaz, capaz de promover as transformações necessárias para enfrentar os desafios do século XXI.



quarta-feira, 2 de agosto de 2017

MENOS BUROCRACIA, MAIS COMUNICAÇÃO E GESTÃO ESTRATÉGICA PARA UM BOM GOVERNO


 A qualidade dos serviços públicos e o foco no direito do cidadão, como estratégia de governo, para minimizar custos, diminuir o retrabalho e o desperdício de recursos materiais e a insatisfação do consumidor, deveria nortear a ação de qualquer governante.

Uma ação estratégica de governo, na atualidade, requer a otimização dos recursos disponíveis, de forma a garantir uma boa prestação de serviços e dar condições ao governo de melhor aproveitar o potencial de recursos à sua disposição.

 
Para tanto, a principal ação estratégica de um governante, no que se refere à gestão dos órgãos públicos sob seu comando, é definir as prioridades de seu governo, e a partir dessa decisão, que deve estar embasada nas necessidades da população e na sua capacidade de executar as políticas públicas propostas, estabelecer um planejamento orçamentário detalhado e capaz de prover o atendimento às clientelas internas (servidores) e externa (população).

 
Um governante competente, necessariamente, precisa compor sua equipe com profissionais tecnicamente capacitados e comprometidos cívica e politicamente com os objetivos do governo.

Isto significa que os membros das equipes - de todos os órgãos de governo - devem estar submetidos a uma autoridade capaz de delegar, dar feedback e avaliar o desempenho do pessoal sob seu comando.

 Cabe ao gabinete do governante gerenciar o desempenho de todo o governo, para avaliar se os recursos estão sendo aplicados corretamente e se o atendimento à população está compatível com a missão da organização e  se está gerando satisfação ao cidadão.

 O combate a burocracia excessiva, gerada sobretudo por órgãos de controle, com cultura gerencial burocrática e reativa, precisa se tornar alvo de ação estratégica, por parte do governador.

É necessário priorizar a gestão interna, otimizando a aplicação dos recursos materiais e principalmente diminuindo  o tempo gasto na relação do servidor com seus pares e com o cidadão.

 
Essa melhoria terá impacto significativo no custo da máquina pública, no aumento da satisfação do cidadão, que demanda serviços públicos mais bem prestados e ensejará a diminuição do aparelhamento político fisiológico dos órgãos de governo.

 A diminuição da burocracia exigirá ações gerenciais de articulação entre  o executivo e os demais órgãos de controle e o Ministério Público, para definir linhas de ação  capazes de facilitar a gestão e não engessar ainda mais o desempenho do governo.

 Para tanto, é fundamental que a integração entre os órgãos de governança seja implementada com tecnologia de informação e comunicação de última geração e que os servidores sejam treinados e avaliados durante todo o período de governo.

  Um dos maiores problemas de governança está na alocação inadequada e fisiológica de pessoas não qualificadas e não comprometidas com os objetivos do governo - em áreas de atendimento ao público (o que é verificável em muitas áreas do governo).

 E na delegação mal feita a gestores, que – via de regra, desconhecem os objetivos do governo e tampouco têm preocupação com a satisfação do usuário dos serviços públicos.

Estes problemas gerenciais são basicamente decorrentes da falta de uma liderança e de estruturação de ações administrativas que cristalizem a vontade política do líder.

Explico: pouco adianta um líder carismático - que tenha influência sobre a máquina de governo, se esta não estiver preparada adequadamente para transformar seu carisma em ação, por meio de políticas públicas efetivas e eficazes.

 Geralmente os gabinetes civis dos governos agem como coordenadores das ações internas do governo, mas nem sempre produzem o resultado esperado, eventualmente porque a autoridade do chefe da casa civil nem sempre é aceita pelos demais membros das outras áreas de governo.

 E também porque a liderança precisa ser exercida na base, onde o cidadão se relaciona com o Estado. O líder precisa estar presente, se não é possível fisicamente, sua forma de governar deve expressar sua liderança.

 Os problemas de mal atendimento ao público decorre, em grande parte, da lógica de coalizão que é imposta aos governos para ter maioria no parlamento e outros compromissos fisiológicos do próprio governador.  E também da estabilidade de vários servidores que não tem interesse em trabalhar com competência e nem se subordinam à liderança da área, pois não são avaliados.

Essa forma de governo tem produzido muitos problemas de desempenho, prejuízos e insatisfação social. É hora de mudar.

A composição das áreas estratégicas do governo e daquelas que têm relação direta com o público, devem ser priorizadas e o governante deve estar atento aos seus desempenhos, pois elas produzirão reflexos positivos ou negativos na imagem do governo e consequentemente do governante.

 Os governantes, ao longo dos mandatos, tendem a priorizar obras que produzam supostamente mais visibilidade e popularidade ao chefe de governo, mas costumam deixar a descoberto áreas de grande impacto sobre a sociedade, como a segurança pública, a saúde, a mobilidade, a questão hídrica, o saneamento etc.

 Isto se constitui numa grave miopia estratégica, porque essas áreas se tiverem uma boa gestão e o governo souber usar as milionárias verbas publicitárias à sua disposição, poderá utilizá-las para informar e educar a população, por meio de campanhas educativas e não por intermédio do recurso rasteiro de ações publicitárias falaciosas; que fazem apenas proselitismo publicitário e não produzem efeito sob o comportamento da sociedade.

Um bom governante saberá priorizar o uso da verba publicitária para se relacionar com a sociedade e não para atender interesses econômicos, nem pagar dívidas de campanha.
Temos uma sociedade mais esclarecida, menos suscetível a ações populistas e demagógicas. Nossa população está cada vez mais descrente da ação dos políticos, cujas promessas não são cumpridas da forma que são feitas.

 
O uso correto da estrutura de comunicação necessariamente tem que ter conotação estratégica, e não ser apenas reativa e informativa.
Cabe à comunicação agir de forma a antecipar o debate, promovendo discussões e utilizando todos os recursos que a tecnologia de informação e comunicação e redes sociais variadas dispõem, para promover a interação entre governo e sociedade.

Vivemos uma nova etapa no processo político, no qual o cidadão está mais atento, mais crítico e tem uma forma de participação no processo ainda não totalmente decodificada pelos governantes.

Portanto, a área de comunicação social do governo não pode ser apenas de assessoria de imprensa e nem de cuidar só da imagem do governante.

Precisa aprofundar suas ações nas redes sociais, prospectar problemas, para antecipar a ação da necessária área de gestão de crises, que nem todo governo mantém, (outro equívoco gerencial).

 O gabinete de crise tem que ser permanente, porque governar significa, antes de tudo resolver problemas e enfrentar crises; uma vez que é necessário aplicar a lei (nem sempre justa, nem democrática) e atender demandas dos grupos de pressão, que são cada vez mais organizados e capazes de interferir nos processos decisórios. Estes têm grande poder de mobilização social, porque dominam bem o uso das redes sociais.

Síntese:

O governante deverá:

·         priorizar sua gestão de forma a minimizar o desperdício, o retrabalho e a insatisfação social;

·        compor suas equipes com líderes qualificados e comprometidos com os objetivos de seu governo. (sem cair nas armadilhas do fisiologismo, da política de coalização e nem em compromissos não republicanos).

 
·        implementar uma área específica, no seu gabinete, com autoridade para acompanhar o desempenho das demais áreas, com caráter eminentemente técnico e gerencial, para medir o desempenho, identificar problemas estruturais e entraves funcionais ( disputas internas, sabotagens, má vontade, incompetência etc), e propor soluções em tempos hábeis .

 

   A ação da comunicação social deverá ser ampliada, para fortalecer o relacionamento com a sociedade, por meio da ação das redes sociais e da prospecção de problemas, antes que se avolumem e tornem reativa a ação do poder público, que sempre fica na defensiva, em relação à pressão dos grupos de interesses.

     O  uso estratégico da milionária verba de publicidade deve ser contemplado, com foco em campanhas educativas.

Ao priorizar a gestão profissionalmente economizará recursos e tempo, além de diminuir a máquina, diminuindo gastos e facilitando a gestão de pessoas.

Essas são algumas das necessárias posturas de um governante para os tempos atuais, no País.

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